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Por Jota Charrua | 8 Abril, 2008

Artigo

Polaridade invertida

Fabio Grecchi

Mônica Matos é uma moça inegavelmente bonita, embora não seja nada especial. Sei que a essa altura vocês devem estar perguntando quem é. Trata-se de uma atriz pornô, ou melhor, de filmes adultos. Engraçado esse eufemismo: não me consta que "Sindicato de ladrões" ou "Todos os homens do presidente" sejam filmes infantis. E não têm uma única cena de sexo explícito.

Na noite da quarta-feira passada, Mônica falou um pouco de sua breve vida ao apresentador Jô Soares, em seu programa. Vinte e quatro anos, mais de 300 filmes, começou no ramo com 19 e viu a primeira película pornográfica aos 10 ("Sou precoce", contou com certo orgulho). Jamais parou em emprego algum. Ou melhor: subempregos. Atendente de bingo, recepcionista. Não teve pruridos em dizer que tem problemas com horários, pois jamais chegava na hora e foi colhendo demissão atrás de demissão.

Embora tivesse se recusado a contar quanto é seu cachê, não seria irreal imaginar que estaria tirando uns R$ 30 mil mensais. Bem acima daquele salário mínimo mais comissões como vendedora, atendente, o que seja. Tudo isso dito assim, de modo brejeiro, simpático, despreocupado. Aquela que já foi considerada a "mais velha profissão do mundo" encontra o estado da arte.

Não creio que exista pai, por mais liberal que seja, que estimule uma filha a se tornar atriz pornô. Quem vive do sexo, sejamos claros e um pouco conservadores, são as há muito conhecidas "moças de vida fácil" - que de fácil nada tem. O mundo da pornografia mostrado por Mônica é glamuroso, divertido até, senão descompromissado. O que ninguém conta, ou se dá conta, é o estado abjeto a que as mulheres são submetidas.

Elas, que mui justamente buscam igualdade em todos os sentidos, são tratadas nesses filmes de maneira animal. Saciam desejos masculinos os mais perversos. Mas é arte, dirão alguns, e no mundo da interpretação conta o desempenho, o papel de cada um. Não há sentimento - hão de bradar! Pouco importa. Não contam como as máfias aliciam menores para se tornarem prostitutas. As menos bobas (ou as que não se importam como o aviltamento), fazem filmes.

Não sou moralista, mas não sou burro ou hipócrita. Mônica Matos presta enorme serviço à ignorância. Como os meninos da orgia de Luziânia, dias atrás, também crê não fazer nada de mais. Aliás, esses adolescentes e pré-adolescentes que seviciavam uma menina de 13 anos tiraram de onde tais exemplos? Dos livros escolares não foi. Foi da sub-cultura, da brutalidade banalizada e trazida para o mainstream do pensamento social. De filmes como os de Mônica, que estão aí nas bancas de revista, na Internet, que passam de mão em mão sem qualquer
vergonha.

Não defendo o obscurantismo da censura, que tornaria pior o que já é ruim. Defendo apenas o debate, a troca de idéias, a difusão de informações e o sexo como saúde e prazer. Mas não consigo ver como uma mulher pode estar com cinco homens ao mesmo tempo, como no filme que deu um "prêmio internacional" a Mônica, e isso ser considerado um ato sexual sadio. Ou entretenimento.

* Fabio Grecchi é editor do Jornal de Brasília

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